
Esconder-se de si dentro de si é as vezes a única maneira de sobreviver aos outros.
Pequenas definições - conhecimento sociológico: erro instrumental da sociologia


Ela imaginava o céu
E ele um prato de feijão
Ela sonhava acordada
E ele dormia no chão
Ana vivia assutada
Pro tédio não pegá-la de surpresa
Pedro vivia calado
Pedro não tinha tristeza
Ana não tinha certeza
Pedro não tinha nada
Ana adorava drinks
Pedro gostava de bar
Ana vivia na night
Ia a noite ao club
E escondida pensava em "dirty dancing"
Ele ralava coxa
Comia caju e bebia cachaça
Ganhava trocado e pagava barato
Ana sorria sem mais
Ana sorria por graça...
Whisky de graça
Scoth importado
Ana tomava por classe
Pedro bebia desgraça
Pedro trabalhava demais
Brigava demais
Cantava demais
Pedro nunca chorava
Ana nunca perdia
Nunca pedia perdão
Nunca errava em vão
Nunca declarava tesão
Ana sempre sabia o que dizer
Pedro gostava de Ana
Ana pensava em Pedro
Pedro em Copacabana?
Pedro e gravata
E garfo e faca
E jantares de gala
E meias de marca?
Ana no morro descalça?
Ana acordando cedo?
Dormindo sem travesseiro?
Sem nunca mais dançar valsa?
E se Ana e Pedro mudassem o mundo?
E se o mundo mudasse por Ana e por Pedro
E girasse, girasse, girasse...
E se o planeta fosse a terra de Ana e de Pedro?
Pedro e Ana em boteco de classe
Ana e Pedro em Chevete importado
E se o amor fosse feito num barraco encantado
E se o tesão comprasse o tempo...
E se nada disso importasse?
E se nada disso importasse?
E se nada disso importasse?
E se o destino fosse menor que o desejo?
Sonho em fazer um poema absoluto
A inexorável canção definitiva
Todos os amantes e poetas em luto
Sentindo emudecer a antes arte viva
E ao findar a madrugada de labuta
Amanhece em pranto a esquecida diva
Pois quando já lapidada a pedra bruta
Não forma infinita, mas infinitiva.
Tudo que alcança sua plenitude
Petrifica-se no plano da existência
Sendo final a outrora reticência.
O perfeito é o oposto da virtude
O completo não exige criação
Sendo depois disso toda arte em vão.
Porque do cintilar dos postes ao longe?
Porque da dança interminável dos automóveis?
Enquanto os homens passeiam mortos pelas cidades.
Porque da brutalidade do nascer do Sol?
Da melancolia do anoitecer?
Do sexo como medida inversa do desprazer?
Porque da leveza dos semáforos?
Da singularidade harmoniosa de cada edifício
Do tilintar rítmico das buzinas?
Porque do peso estático das árvores?
Do barulho agudo e agonizante dos pássaros
Porque dos bichos passearem tão vivos pela mata?
Porque da pureza quase alcoólica dos ares condicionados?
Da arquitetura quase melodiosa de um notebook
Da poesia que dizem estar escondida em cada jornal?
Cansaram-se das fadas
Querem agora os super-heróis japoneses
Cansaram-se das bananas e mexericas
Preferem agora filas em fast-foods
Não há quem queira saber das plantas
Se há sempre um novo café a se conhecer
Pra que passeios sem destino
Se há agora tantas avenidas que nos levam a lugar nenhum?
Incompreensível a dor dos poetas
A modernidade alivia a todas
Felicidade oral
Injeções de esperança
Um carro que traz alegria
Uma televisão capaz de sonhar por você
O olho a olho virtual
Não plante mais árvores
Há muitos edifícios a serem construídos
Esqueça as frutas
Há pós sintéticos de sabores desconhecidos
Não me venha falar de amor
Os chips estão cada vez mais modernos
Não pense mais nas estações
Pra pele é sempre verão
Pro nariz sempre inverno
Não pense em céu
Nem em inferno
A vida agora é o eterno purgatório
O esperar sem fim, por nada
Enquanto isso,
Passeiem,
Passeiem mortos pela cidade.